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  • Livro descreve suposto uso de sexo como arma de poder por Kadhafi

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    03/10/2012 às 09h58

     

     

     

    Um livro recém-lançado de uma jornalista francesa descreve o ex-líder líbio Muammar Kadhafi, morto em 2011, como um 'predador sexual' que sequestrou e estuprou, segundo a autora, "milhares" de vítimas, inclusive homens.

    Até ministros líbios, militares, atrizes e esposas de presidentes e diplomatas africanos teriam sofrido abusos sexuais cometidos por Kadhafi, afirma a jornalista Annick Cojean, repórter especial do diário "Le Monde".

    Kadhafi, que governou a Líbia por 42 anos, tinha uma sexualidade desenfreada, com impulsos que precisavam ser satisfeitos quatro vezes por dia, segundo a autora, que baseia seu livro em relatos feitos por vítimas, professores, médicos e ex-colaboradores do ditador.

    Cojean conta no livro "Les Proies - dans le harem de Kadhafi" ("As presas - no harém de Kadhafi") que o ex-líder tinha colaboradores que procuravam garotas, e, às vezes, também meninos, em todos os lugares, como escolas, casas e festas de vilarejos.

    "Kadhafi assistia a vídeos de casamentos para selecionar moças, isso quando ele não escolhia a própria noiva. Muitos líbios hesitavam em convidá-lo para festas por medo de que suas filhas fossem levadas depois", afirmou Cojean à mídia francesa durante o trabalho de promoção do livro.

    Segundo ela, o ex-líder também abusava sexualmente de celebridades, jornalistas, filhas de generais ou esposas de políticos, às vezes, por meio do uso da força. Em outros casos, distribuindo joias e malas de dinheiro depois.

    "Kadhafi obrigava alguns ministros a terem relações com ele para controlá-los por meio de uma espécie de chantagem. Claro que ninguém tinha interesse de falar sobre essa humilhação total. Ele procedia da mesma forma com chefes de tribos, diplomatas e militares para ter influência sobre eles", afirma.

    Um dos entrevistados no livro, Mansour Daw, ex-chefe da segurança e primo de Kadhafi, que está preso, não contesta esses aspectos do regime e afirma ter realizado o casamento de seu filho de forma discreta, proibindo o uso de celulares, para evitar que Kadhafi pudesse ver fotos da festa.

    "Não queria que minha família fosse vítima de seus atos", disse Daw à jornalista, segundo o livro.

    'Toque mágico'


    Durante eventos, como visitas a escolas, o próprio Kadhafi também podia designar uma adolescente ao colocar a mão sobre a sua cabeça, alega a jornalista.

    "Era um código para os seus guardas, sinalizando que ele desejava a garota, geralmente na faixa de 13 a 15 anos de idade", diz Cojean.

    O "sinal" dado por Kadhafi aos seus guardas era chamado, segundo ela, de "toque mágico".

    "Essas jovens serviam para alimentar sua brutalidade sexual. Ele as mantinha no subsolo de sua residência, em Bab al-Azizia (uma caserna fortificada), e as estuprava, obrigando-as a beber, se drogar e assistir a filmes pornôs", conta Cojean.

    O sequestro no subsolo da residência, com inúmeros quartos, podia durar alguns dias ou ser bem mais longo. Como a rotatividade era enorme, Cojean afirma que é impossível saber o número exato de vítimas.

    "Esse harém sórdido é o mais terrível tabu dos anos Kadhafi. Hoje, apesar da morte do ex-líder, as vítimas ainda têm tudo a perder se revelaram o segredo", diz a jornalista.

    "A pressão social e religiosa é muito forte. Elas serão rejeitadas e suas famílias também. Pais, irmãos e maridos serão considerados sub-homens porque não lavaram a honra com sangue", afirma Cojean.

    Testes de Aids
    Segundo o livro, enfermeiras ucranianas realizavam exames de sangue nas vítimas para se certificar de que elas não tinham Aids, já que Kadhafi tinha fortes temores de contrair a doença.

    O médico Faisel Krekshi, nomeado reitor da universidade de Trípoli após a revolução, contou à jornalista ter descoberto no prédio da instituição uma "garçonnière" com jacuzzi e torneiras douradas.

    Segundo a jornalista, ele disse ter encontrado no local oito ou nove DVDs com imagens de agressões sexuais cometidas por Kadhafi no local, mas afirmou ter destruído o material para preservar as vítimas.

    Em frente ao quarto, havia uma sala de exame ginecológico totalmente equipada, que a jornalista afirma ter visitado.

    "Só vejo duas possibilidades de utilização dessa sala escondida: abortos e cirurgias de reconstrução do hímen, proibidos na Líbia", disse Krekshi.

    Amazonas
    Antes de escrever o livro, Cojean havia publicado, no ano passado, uma reportagem no "Le Monde" sobre a garota Soraya, que após ter entregado flores a Kadhafi durante uma visita à sua escola, quando ela tinha 15 anos, recebeu o "toque mágico".

    A garota, que morava em Syrte, cidade natal de Kadhafi, foi levada no dia seguinte por três mulheres e conta ter sido durante cinco anos sua escrava sexual.

    Soraya integrou a equipe de soldadas que faziam a segurança de Kadhafi e o acompanhavam por todos os lados. No Ocidente, essas mulheres, maquiadas e esculturais, eram chamadas de "amazonas".

    "Essa guarda de Kadhafi era uma fachada. Elas eram suas escravas sexuais e pouquíssimas ali tinham realmente formação militar. Sua segurança real era realizada por homens", diz a autora.

    Para Cojean, Kadhafi utilizou o sexo como arma política. "Tomar as mulheres significa dominar os homens", diz ela.

    O livro deverá ser lançado neste mês na Líbia. "Acho que ele provocará um choque enorme e debates no país", afirma Cojean.

     

     

     

     

     

    FONTE G1

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